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Canindé do São Francisco

Antes e depois de Xingó
Cidade foi completamente
demolida para dar lugar à hidrelétrica. A atual foi planejada
A pequena Canindé, a 213 quilômetros de Aracaju, passou a ser o município mais visado do Estado – tanto comercialmente quanto politicamente – após a construção da hidrelétrica de Xingo, no Rio São Francisco, que gera 25% da energia do Nordeste. A receita mensal do município, decorrente do ICMS da usina, era uma das mais baixas e de repente ultrapassou os R$ 2,5 milhões, só perdendo para a capital do Estado.
A partir da década de 90, a pacata cidade nascida de uma aldeia de pescadores passou a ter uma vida política conturbada, movida por assassinatos e corrupção. Por volta de 1936, às margens do Velho Chico existiam dois pequenos arruados situados entre morros, que ficaram conhecidos como Canindé de Cima e Canindé de Baixo. Essa povoação deixou de existir a partir da implantação da usina. A justificativa para a transferência da sede do município foi que, além da cidade não ter espaço para se expandir, situava-se na chamada área de risco da hidrelétrica.
Por causa disso, foi feito um trabalho de conscientização junto aos canindeenses para convence-los da necessidade da transferência. Os governos municipal, estadual e federal uniram-se para que o projeto que custou US$ 3,5 bilhões se concretizasse. Com a mudança da cidade, alguns moradores receberam indenização, mas a maioria fez permuta por uma casa na cidade planejada.
A nova Canindé foi construída pela Chesf – Companhia Hidro Elétrica do São Francisco – e entregue aos moradores. A cidade, apesar de projetada, com áreas administrativa, comercial e residencial, não foi estruturada o suficiente para receber a quantidade de gente que procurou o local com sonho de melhorar de vida.
História Antiga
Canindé fazia parte da sesmaria de 30 léguas de terras, concedidas aos Burgos – família da Bahia chefiada pelo desembargador Cristóvão Burgos e Contreiras – que lhes foi doada em 1629 pelo governador de Pernambuco, D. João de Souza. Essas mesmas terras pertenceram depois ao Morgado de Porto da Folha, instituído por Antônio Gomes Ferrão Castelo Branco.
Conforme registro na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, nos tempos do Brasil Colonial o território de Canindé foi devassado pela cobiça de bandeiras. Mas, por causa da seca que sempre castigou toda a região sertaneja, os primeiros desbravadores acabaram perdendo o interesse pelas terras, apesar da grandeza do Rio São Francisco.
No final do século XIX, naqueles arredores existiam apensas quatro fazendas: Cuiabá, Brejo, Caiçara e Oroco. Foi quando Francisco Cardoso de Britto Chaves, conhecido como coronel Chico Porfírio, resolveu investir nas terras. Comprou uma grande propriedade ao capitão Luiz da Silva Tavares – onde posteriormente foi implantada a sede da antiga de Canindé -, construiu sua residência e fundou também o Curtume Canindé, em parceria com o coronel João Fernandes de Brito.
Mais tarde o curtume virou uma indústria mecanizada que atraiu inúmeros trabalhadores, aumentando a quantidade de moradias do lugarejo.
Na Canindé de Cima havia algumas taperas pertencentes aos pescadores, João e José Alvez, Ota, José de Terto, Libório, Antônio Fininho, Neco de Carlota e a outras famílias. Na de Baixo, onde foi implantada o curtume, surgiram várias casas, transformando a povoação numa das mais importantes da beira do Velho Chico.
Política conturbada em Canidé
Na época da inauguração da cidade, ocorrida em 1987, o prefeito era Jorge Luiz Carvalho santos, eleito através do prestígio político do pai, Ananias Fernandes, após sua morte num acidente automobilístico. Em julho de 2001, Jorge foi preso pela Polícia Federal, junto com sua ex-mulher, a ex-prefeita Hortência Carvalho (agora Silva), mas foram libertados.
Eles são acusados de terem articulado a chacina que vitimou, em 20 de janeiro de 1995, o presidente da Câmara de Vereadores, Ademar Rodrigues de Assis, 53 anos, e mais três pessoas. Hortência era vice-prefeita na época e assumiu a prefeitura no lugar dele.
Outros atentados e mortes ocorridas em Canindé mudaram a história política do município. Em 1993, no dia 5 de maio, o prefeito Delmiro de Miranda Britto morreu num acidente de carro, próximo, a Nossa Senhora das Dores. O acidente gerou suspeitas por causa das marcas roxas no pescoço, e também está sendo investigado.
Duas intervenções
O município já sofreu duas intervenções estaduais. A primeira foi em 1995, na gestão de Hortência, quando em 11 de julho Narciso Machado assumiu o destino de Canindé. Após a intervenção, Hortência retornou ao cargo e ficou até o final de 1996.
A segunda ocorreu no dia 2 de maio de 2001, na gestão de Rosa Maria Fernandes de Feitosa, vice-prefeita que assumiu a prefeitura em 28 de março, no lugar do sogro Genivaldo Galindo, que renunciou ao mandato em 27 de março do mesmo ano.
Em fevereiro de 2000. Galindo foi acusado pelo tratorista José Ferreira de Melo, o Zé de Adolfo, de ter mandado matar o radialista Zezinho Cazuza, (José Wellington Fernandes). Acuado, ele desapareceu após o juiz Netônio Bezerra Machado ter decretado sua prisão preventiva no dia 12 de março, um ano após depois do assassinato.
Rosa Maria voltou à prefeitura do município de Canindé, que foi devassado pela Justiça, para investigar o destino exato da receita que entra mensalmente no município, que é rico e tem um povo pobre.
O povo sofrido de Canindé Velho de Baixo
Os meios de comunicação têm sido pródigos em relação ávida de Canindé do São Francisco, município constitucional de ver sua receita elevada para picos verdadeiramente astronômicos. A nova cidade foi projetada e construída sob a égide da grandeza, e pessoas de todo o Brasil acorreram à procura de lucros e vantagens.
A Nova Canindé era o grande eldorado de Sergipe. E os pioneiros da Velha Canindé? O que foi feito deles? Quais as providências e cuidados que as autoridades do Estado e do País tomaram em relação às famílias do pequeno núcleo ribeirinho?
Com ares de “bom moço” os responsáveis pela hidrelétrica, guiados pela insensibilidade característica daqueles que não possuem o mais elementar sentimento de humanidade, cuidaram de convencer aquela gente a se mudar para a nova e grandiosa cidade com argumentos tentadores.
Chegou o dia da mudança. Muitos sofreram aquela triste despedida. Foi com dor no coração que aquela gente abandonou sua casa e retirou de sua cidadezinha amada, com destino à nova cidade.
Cada um daqueles beiradeiros sonhava com melhores dias, uma condição melhor, uma mesa farta, e junto a esses sonhos, a certeza da continuidade da paz e harmonia que gozavam no pequenino lugar de seus troncos e raízes.
O tempo passou. Lá se vão 14 anos da inauguração da nova cidade. O município enriqueceu, o povo empobreceu ainda mais. A maioria dos que vieram da Velha Canindé perdeu sua identidade e hoje é considerada resto de um povo que perdeu suas casas, sua tranqüilidade e o aconchego das ruazinhas poeirentas do lugar em que nasceu e viveu os melhores anos de sua vida.
O que se vê nos dias de hoje é um injusto e inexplicável contraste; o município, que nos tempos de penúria e indigência era um pai amoroso que se preocupava com seus filhos, nos dias atuais tornou-se um pai perverso e injusto para com seus descendentes que vivem mergulhados numa pobreza absoluta, enquanto ele (o município) é detentor de grandes posses.
Pobre povo da Valha Canindé. Perderam tudo. Atônitos e abismados, os moradores da cidade condenada assistiram ao final triste da história do Canindé Velho de Baixo. Naquele inesquecível e doloroso instante começava também a perda da identidade dos filhos do último porto do Baixo São Francisco.
Tudo foi dizimado. A cidade foi varrida do mapa de Sergipe. A troco de quê? Absolutamente nada. De vez que com o passar dos anos foram construídas casas e até a estrutura de um hotel, numa prova mais do que evidente de que não havia necessidade de se assassinar a história do povo da Velha Canindé. E, ainda mais, não se respeitou nem os mortos da cidade destruída. Numa atitude absurda e verdadeiramente incompreensível, os restos mortais do povo que deu vida a Canindé e a Sergipe foram arrancados de suas tumbas, onde repousavam para a eternidade, e foram levados para o novo cemitério da nova e vaidosa menina sertaneja.
A Nova Canindé roubou a identidade cabocla. Destroçou o sentimento de cada um dos descendentes da beira do “Velho Chico”. Em lugar da caça e da pescaria, a sobrevivência chega através do bendito dinheirinho das aposentadorias, além da vergonha de ser obrigado a ir para um fila mendigar uma cesta vergonhosa do governo Federal.
Não se pode negar. É uma verdade. O sertanejo foi castigado. Um castigo tão medonho que até o gigante e invencível Rio São Francisco caiu e foi dominado pela sanha maldita do homem que em nome do progresso levou-o para uma quase que irreversível morte. Dá pena de ver a situação chocante e aflitiva do famoso rio.
A Nova Canindé é notícia, é manchete de jornal, é noticiário de televisão, é uma jovem mocinha que precisa ser exemplada para perder sua vaidade, seu orgulho e sua insensibilidade. E o povo da Velha Canindé? Este continua sofrido. Até quando? Só Deus sabe.
Fonte: Cinform Municípios